Texto Curatorial - Por Laura Sousa

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Outros enredos e indecências de Guilherme Patriota

Após mais de vinte anos de produção com distintas materialidades e temáticas, o artista visual pernambucano Guilherme Patriota (Itapetim, 1978) lança seu site e apresenta a mostra virtual da série “Os descamisados ou releituras indecentes de uma história da arte mal contada” com 31 desenhos produzidos em formato A4, com grafite, canetas porosas e marcador de cd sobre papel Canson. Tais ferramentas, de fácil acesso cotidiano, são comuns nas experimentações que marcam o seu trabalho plástico, assim como adentram as inúmeras possibilidades com as quais relaciona figuração com formas geométricas.

A série exposta foi iniciada em 2018/2019 e teve sua continuidade ao longo do ano de 2020 e em janeiro de 2021, em plena vivência da pandemia da Covid-19, quando mais onze desenhos foram produzidos exclusivamente para esta plataforma. Sua idealização partiu de um insight ativado, entre outras fontes, pela leitura/observação do livro “A História da Beleza” (Umberto Eco, 2014), referência inserida na sua criação como um processo de improviso que teve por mote algumas imagens e/ou ícones clássicos da História da Arte ocidental. Com este ponto de partida, Guilherme Patriota retira e reconecta elementos visuais (rostos, formas, corpos, objetos) através de desenhos sequenciados, nos quais todas as figuras ou símbolos recriados estão em preto e branco, saltando do papel, e os preenchimentos (fundos/espaços/cenas) estão no extremo do colorido.

Considerando que a noção do Belo nunca foi absoluta e imutável no decorrer do processo civilizatório, os trabalhos aqui apreciados nos levam a um exercício de múltipla percepção e, até mesmo, de cômico estranhamento diante de formas e corpos que, ao longo de séculos, transmitiram sensações de bem estar ou pulsões eróticas e outras estratégias do desejo. Os desenhos de Guilherme Patriota engendram, por sua vez, conexões temporais promíscuas ou “indecentes”, digamos assim, entre diversos referenciais imagéticos da Arte hegemônica, onde os personagens se encontram e se tocam despudorados, encostam uns nos outros e misturam livremente as conotações da beleza e da feiura.

Manobrando e distorcendo famosas representações humanas – desde as esculturas da antiguidade grega, passando pela corporalidade das vanguardas modernas, até vertentes da publicidade e seus apelos erotizados de consumo –, o artista nos faz perguntar, também, o que há de bizarro nas concepções do Belo ou do Bom e por quê ainda exercem tanta atração sobre nós. Sem dúvida, esses são conceitos que sempre exerceram formas do Poder, sobretudo, na preservação de nossas memórias culturais como campo institucional. Diante de tantas dinâmicas de mercado e de reconhecimento crítico, quem são os “descamisados” da arte? Ou seja, como a continuidade e a subversão da Beleza, enquanto políticas de inserção nas grandes narrativas históricas, criaram seus cânones ao mesmo tempo em que marginalizaram tantas práticas e contextos sociais e territoriais?

Observando-se como um “descamisado” (condição que reitera no vídeo que acompanha essa mostra virtual), o artista vai desenvolvendo um jogo de “acenos”, ou de interferências mútuas, entre os desenhos que são atravessados por frases, personagens e cenários que remetem à vida urbana, à má distribuição de direitos e recursos até que se destacam as figuras humanas em abordagens ora sarcásticas e caricaturais, ora contemplativas e provocadoras.

Revisitando anos de estudos e imersão dentro e fora de museus, Guilherme Patriota propõe sentir a força e as imposições dessa história da arte como uma porta aberta para o seu improviso na composição dos desenhos em que traços e contornos de cores vão se complementando e convidando à criação. Expostas exatamente na ordem em que foram desenvolvidas, as obras, aqui, tornam compreensível a pesquisa empreendida e o aprofundamento do enredo que se revela entre o ato de reconhecer os ditames historiográficos e o de se apropriar deles de maneira tão particular.

 

Laura Sousa