Noites de um solitário e a gata “Mi Mi”

Enquanto todos dormiam G apenas cochilava para perceber que realmente ninguém mais estava acordado. A perturbação daquela voz de gato que miava, estampava na cara de G que tudo era em vão, os tempos haviam de acabar e ele só podia apenas esperar. Caminhava do quarto ao banheiro há mais de uma semana e ninguém desconfiava de nada, ora, pois bem, ninguém o via, ninguém o enxergava. G era um poço; um poço sem água, com um balde pendurado por uma corda, que balançava, se assanhava por suas paredes pedindo sempre o líquido que ele não tinha. G já não comia, a ingestão de alimentos significava mais um dia de tortura, um dia sem respostas para tantas perguntas, um dia que se multiplicaria por mais dois ou três, os quais nada viriam, nada refletiriam, nada mudariam do que já estava mudado. Por vários momentos pensou em parar, acreditou que poderia voar, ao invés de caminhar do quarto ao banheiro. Tomou um trago, bem forte, imperceptível a todos aqueles que ele acreditava beberem ao seu lado, mas incômodo a digestão. No descer da vodka, G sentiu todo seu organismo em transformação, e deparou-se com o estômago, deformado, cortado, estupidamente ácido no tocar do destilado. G voltou correndo, sugado como uma fita rebobinada que mostra a imagem de trás para frente e com tripla velocidade. Sentiu um cheiro de fumaça; acendeu um cigarro e voltou a caminhar em direção ao suposto banheiro. Parou no corredor, cuspiu toda a parede, e depois, com calma, pediu ao garçom um saquê. Obviamente não foi atendido, e continuou sua caminhada até atingir o vaso sanitário. G estava esquelético e não teve forças para segurar seus óculos que caíram sanitário adentro durante a descarga. Tomou o caminho de volta, outra vez o quarto, o útero, a mãe. Sentiu-se criança, amado, farto de sabores simbólicos que enchem qualquer poço de água, de vinho, de vodka. G já não mais agüentava esperar, resolveu agir, tomar uma decisão que mudasse sua situação, seu dilema. Resolveu não ir ao banheiro, mas esperar que a vontade de urinar fosse certeira e molhasse suas calças para novamente se sentir enxaguado, acariciado pela urina amarelada que se acumulava em seu organismo e que deveras seria expulsa. A urina não veio, G nem mais lembrava. A porta aparentemente entreaberta sugeria a G que alguém estava à espreita, mas resolveu agir sem ação, resolveu esperar para ver se o fim era realmente o início. A porta bateu, G não percebeu e novamente a porta se abriu. G enxergou uma luz ao longe, bem no fundo do corredor que dava para o banheiro, e sua atitude foi de visão, pensou nos óculos, pegou com as duas mãos e pôs o mesmo na face, sobre o nariz, subindo com o dedo indicador, lentamente, a peça inteira até alcançar as lentes aos olhos, então já era tarde, a porta novamente estava fechada. G retirou a peça de seus olhos e forçou a fechadura, abrindo a porta e o zíper ao mesmo tempo. Viu uma torneira derramando água, uma garrafa de coca-cola enchendo um copo, uma fonte das de praça jorrando, uma mamadeira pingando leite e a chuva na janela que a toalha molhava. Não compreendia tanto líquido, mas aquela sensação ainda mais o incomodava, o deixava perplexo, encabulado e direcionado a voltar ao quarto. No fechar da porta viu bananeiras que escoriam pingos da chuva, pingos que molhavam seu rosto, que escorriam por sua barriga, que desciam a sua virilha, que esquentavam sua perna. G sentiu um toque mais forte no ombro, e mais forte foi a sensação de quentura em suas pernas, era como se a realidade do ir e vir ao banheiro, que aparentava mais de uma semana, tivesse perdido a noção de tempo. G, muito incomodado, se sentiu acordado por sua mãe, que reclamava: “- Menino! Sempre que você brinca com fogo a noite, você acaba acordando mijado. E o trabalho todo depois fica comigo!” G agoniou-se; penetrou no estágio menos macio do divagar e acabou caindo da cama. Agora, realmente, ouviu “Mi Mi” miando, no chão, ao lado da garrafa de vodka, onde ele havia caído, e teve a nítida sensação de estar acordado: Será?!

Por Guilherme Patriota

Tradição é Tradição

Na Itapetim de minha infância, moral e tradição sempre andavam juntas, e deviam ser interpretadas de acordo com nossos próprios sentidos. E nada mais tradicional do que a bodega de seu JS. Lá, nas quartas-feiras, dia da feira da cidade, todos se encontravam para comprar seus mantimentos ou mesmo para encher a cara ou simplesmente para observar os sitiantes que só apareciam naquele dia para fazer negócios e também suas feiras semanais. Mas para nós moradores da rua – como lá se dizia – a tradição era o queijo de manteiga fresquinho, que chegava pontualmente às 7h da manhã, e que era consumido por todos os habitantes daquela localidade. Seu JS nunca ficava pela manhã, apenas abria a bodega e ai acordar P, seu neto, que preguiçoso que era, vinha ainda sonolento tomar conta do negócio da família. Na minha casa, que tradicionalmente eu não tomava café da manhã, todos adoravam queijo de manteiga, principalmente no desjejum quando o queijo ainda estava quente e não precisava nem esquentar o pão para consumi-lo. Sendo eu o filho homem mais velho, meu pai sempre me atribuía a função de ir buscar o queijo fresco na bodega de seu JS, motivo este para eu nunca querer engolir aquele alimento tão tradicional na rotina alimentícia de nossa cidade. Diariamente a cena se repetia. Chegava eu na bodega e estava P sentado, com os joelhos junto ao rosto, meio acordado e meio dormindo, com os olhos cheios de remela e o nariz sempre escorrendo pelas duas narinas, esperando que qualquer freguês lhe acordasse para fazer seu pedido. O queijo, objeto de maior desejo de todos, geralmente, ficava em uma mesa logo a sua frente para facilitar a movimentação e para que o mesmo voltasse a cochilar mais rápido no intervalo entre um freguês e outro. Quando eu o chamava ele sempre dizia que não estava dormindo e, quase que mecanicamente, punha sua mão sobre a mesa, puxava o pano que cobria o queijo, passava em seu rosto, retirando todo aquele excremento que ali se encontrava, pegava a faca com a outra mão e limpava-a com o mesmo pano e me perguntava quantos quilos queria. Eu dizia a quantidade, ele cortava, pesava, embalava com um papel de embrulho e me entregava para que minha família pudesse tomar deliciada seu café da manhã. Certo dia, enojado com a situação e, principalmente, porque P estava extremamente resfriado, escorrendo rios de catarro por suas narinas e, ainda, resolveu limpar a parte superior do queijo com aquele mesmo pano que limpava seus excrementos, dado que era época de chuva e as moscas tomavam conta do local, resolvi perguntar se ele não se sentia mal por praticar tamanho ato anti-higiênico e o mesmo respondeu: “- Meu amigo, tradição é tradição! Você está querendo questionar a moral higiênica deste ambiente que alimenta toda uma cidade?” Sai de lá todo desengonçado e resolvi, pela primeira vez, comer aquele tão tradicional queijo brasileiro, realmente brasileiro, verde e amarelo.

Por Guilherme Patriota